07 fevereiro 2013

A tal da propaganda

Hoje li no jornal O Globo um artigo escrito pela procuradora do Estado de São Paulo, Flávia Piovesan, sobre o "limite da propaganda", em relação à propaganda destinada ao público infantil.

Eu respeito quem luta por causas e me proporciono sempre o benefício da dúvida. Há sempre mais lados numa história do que aqueles que conhecemos, por isso não dá para ser totalmente contra alguma coisa ou totalmente a favor.

Mas algo nessa história me cheira hipocrisia.

Em vez de pais omissos, vamos colocar a culpa da obesidade infantil na publicidade? Quem compra os alimentos das propagandas são as crianças? Ou são os pais que se negam a dizer não por achar que aquele mal só ocorre por causa do mau e velho capitalismo?

O Lucas é um bebê, mas já sabe que doce é mais gostoso do que fruta. E, não, ele nunca comeu brigadeiro, nem bolo, nem bala, nem nada disso. O que ele entende por doce é biscoito maizena, que contém uma quantidade de açucar suficiente para faze-lo entender que pode ser muito mais atrativo do que um pedaço de maçã.

E cabe a quem definir se é o biscoito maizena ou a maçã que ele vai comer no lanche? Não existe propaganda de maçã...

Na minha leiga e observadora visão, a obesidade infantil aumentou porque:

os pais se sentem culpados por não estar tão presentes na vida de seus filhos devido ao tempo que dedicam ao trabalho, e acabam tentando compensar deixando a criança comer o que ela quer comer;
os pais têm preguiça, devido ao dia cansativo que tiveram, de dizer que a criança vai comer sopa de legumes no jantar ao invés de biscoito recheado;
a prática de esportes não é incentivada pelo governo federal e pelas instituições privadas. Elas chegam a  pouquíssimas comunidades bem humildes, com quadras poliesportivas e professores voluntários, ou a pessoas com um confortável poder aquisitivo que podem "se dar ao luxo" de pagar para que seus filhos pratiquem esportes em clubes ou academias;
a violência nas ruas, e o trânsito caótico, fizeram com que as crianças brincassem cada vez mais dentro de casa, se restringindo a vídeo-games e outros dispositivos eletrônicos, deixando de gastar a energia que, a geração X e Y gastava soltando pipa, pulando corda, brincando de pique-bandeira e queimado.

Eu zero vejo relação entre a propaganda e a obesidade infantil e até hoje não vi um estudo confiável que mostre esta relação.

Eu via propaganda do Mc Lanche Feliz todos os dias na TV! Via propaganda de chiclete, bala, biscoito... Muitos e muitos hamburgueres diferentes... E nunca fui gorda. Sempre brinquei na rua, sempre fiz esportes. Minha mãe não tinha dinheiro para pagar grandes clubes e academias, e não morávamos em comunidades que dispunham de quadras poliesportivas com UPP e professores voluntários. Mas, como minha mãe dva muito valor a isso, sempre encontrava um jeito de incluir a gente. O esporte era prioridade. Durante muitos anos fiz natação no Sesi, a preço de banana. E depois que passei a pagar minhas próprias contas, o esporte continou sendo prioridade e sempre que pude separei o dinheiro para pagar o clube e/ou academia.

Eu acho, sim, que a propaganda pode ser responsável por muitas frustrações. Mas também acho que isso independe de idade. A Flávia fala no artigo que "Por estar em processo de desenvolvimento biopsicológico, a criança não tem o discernimento necessário para compreender a mensagem publicitária, o que torna o seu direcionamento às crianças abusivo". A partir deste ponto de vista, levando em conta a frustração da população em geral com as coisas que ela não pode comprar, não seria abusiva a publicidade em geral?

As crianças lidam muito melhor com a realidade do que os adultos. Elas se adaptam muito mais rápido e eu não digo isso como uma especialista em crianças, mas como alguém que observa o comportamento humano e teve contato com muitas crianças nos últimos anos e, é claro, na minha própria infância.

Meus pais nunca tiveram dinheiro sobrando. E eu era chata, sempre vinha com o famoso "eu queeeeero". Bastava um olhar da minha mãe para que eu "engolisse" o choro após receber o "não". Nem uma única vez fiquei frustrada ou traumatizada por causa desse não.

A Flávia diz no artigo: "Pesquisas comprovam o impacto da propaganda endereçada à criança: contribui para a obesidade infantil (e outros distúrbios alimentares e doenças associadas); a erotização precoce; o estresse familiar; e a violência".

Eu concordo que tudo isso tem aumentado muito nos últimos anos, mas, na minha visão, é hipocrisia DEMAIS colocar tudo isso na conta da propaganda!

A obesidade infantil está ligada ao que as pessoas comem, não ao que elas veem. A erotização precoce está muito mais relacionada ao ambiente familiar em que a criança vive do que ao que ela assiste na TV. Até porquê, a erotização maior é nas novelas, nos telejornais e nos programas, não na publicidade infantil. O estresse familiar... colocar na conta da publicidade? É brincadeira, né? As pessoas estão mais intolerantes porque estão mais estressadas, porque estão trabalhando demais, porque não se desligam do telefone nem um segundo no dia, porque só sabem trabalhar porque elas querem comprar tudo o que a propaganda oferece. Não somente o que a propaganda oferece para suas crianças.

Proibir a publicidade infantil é uma medida paliativa, que provavelmente não trará nenhum resultado para as "mazelas da sociedade atual". E, pior, ainda abrirá precedente para outras proibições.

A procuradora diz ainda no artigo que isso não tem nada a ver com liberdade de expressão. Será? Seria no mínimo complicado explicar isso quando qualquer tipo de publicidade for proibido.



3 comentários:

  1. Ju, eu concordo com você acho que a "culpa" não é da propaganda e sim dos pais com certeza. Murillo já comeu chocolate, ja tomou refrigerante e olha que ele não troca um copo de água ou suco por refrigerante, já comeu Mc Donalds e não gosta, só quer o brinquedo. Eu não me nego a fazer uma comida para ele a noite, muito menos no almoço, ele sempre come bem, fruta, legumes, arroz e feijão ele ama feijão. Então acho que vai de cada pai, cuidar do seu filho como bem entende.
    Beijos Ca
    Adorei a texto!

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  2. Muito bom seu texto. Mas como sempre na vida culpar os outros é mais fácil, as pessoas culpam a propaganda e pronto.
    Chato isso né?
    Beijo

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  3. Seus textos são sempre muito bons, gosto demais. Quanto a esse, concordo plenamente com vc. a obesidade infantil NADA tem a ver com a publicidade e sim com os pais, mas nisso não culpo só os pais, culpo os filhos também. Tive esse problema em casa, e vou te dizer, tive muita culpa na fase em que eram bebês, alimentava demais, enfim... já processei e digeri esse erro. Mas por outro lado vejo que é MUITO fácil controlar o que um bebê ou uma criança come, isso é tranquilo, mas controlar o que um adolescente come, isso é quase impossível, vc. pode fazer em casa, mas tem a rua, tem os amigos, os Macs, Bob's... e outros do gênero, aí sim é muito complicado controlar, fora a vontade do adolescente de comer, mesmo que vc. fale, mesmo que vc. mostre, mesmo que tudo... acredite fiz isso e foi impossível. Dessa idade para frente o que conta é a vontade da pessoa de querer emagrecer, ou mesmo de não engordar. Vejo outra realidade hoje na Bia, os pais são bem controlados e atentos a alimentação dela, o que acho MARAVILHOSO, seu tio sofre, mas eu não, acho que é por aí mesmo, assim eles facilitarão a adolescência dela, já terá pelo menos aprendido o correto, se errar vai ser por opção e não por ignorância. E outro detalhe, vc. era BEM CHATA para comer kkkkkkkkkkkkkkkk, por isso era tão magra. Beijoca kkkkkkkkkkkkk

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